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24 de junho de 2013

Professores, uma referência contra o medo

Na semana em que se assinalam os dois anos da posse do Governo de coligação PSD-CDS, chefiado por Pedro Passos Coelho, o executivo sofreu uma derrota política com a greve dos professores. O dia 17 de Junho pode vir a ficar na história deste Governo como o dia marcante no que tem sido a investida autofágica ao próprio Estado, que o Governo tem consumado no ataque aos funcionários públicos.

A greve dos professores no dia de exame nacional de Português - na continuação da greve às avaliações, que já estava a ser um sucesso - foi uma importante derrota política de todo o Governo e em especial do primeiro-ministro, que deu cobertura à forma como o ministro da Educação geriu este assunto e o transformou num braço-de-ferro com os sindicatos dos professores e com os professores em geral. A derrota foi tal que os exames previstos para o dia da greve geral já foram antecipados para a véspera.

O primeiro-ministro autorizou e apoiou a forma autoritária e no limite do poder democrático e do Estado de direito como o ministro da Educação procurou forçar os professores a irem vigiar exames. Quebrando todas as noções de bom senso e de tentativa de conciliação social que competem ao poder executivo em democracia, o ministro da Educação insistiu na recusa em adiar o exame para 20 de Junho, como foi sensatamente proposto pelo colégio arbitral a que o próprio ministro recorreu e que se recusou a decretar serviços mínimos. Se o tivesse feito, Nuno Crato tinha de uma penada saído como um governante que sabe dialogar e reconhecer o direito democrático à greve, mas que pôs em primeiro lugar o interesse dos alunos. Seria visto como um vencedor e teria esvaziado a greve dos professores, deixando os sindicatos sem espaço político e social para remarcar a greve para outro dia de exames.

Mas o primeiro-ministro, com o respaldo e o veemente apoio político que deu a Nuno Crato nesta cruzada, decidiu que mais uma vez os professores iam servir de exemplo. E adoptando a arrogância do autoritarismo neoliberal perante o trabalho e prosseguindo a mesma linha ideológica de que tem governado com o intuito de baixar o valor do trabalho, o Governo seguiu em relação à greve dos professores as regras de um manual de thatcherismo de trazer por casa. Convenceu-se que também ele ia "quebrar a espinha" aos sindicatos. Enganou-se.

O que o Governo conseguiu foi lançar a confusão nos exames de Português, que ou não se realizaram ou realizaram em muitos casos atabalhoadamente. Se não, vejamos os dados que resultam de um dia de greve. Segundo o próprio Ministério da Educação, apenas 76% dos 75 mil alunos inscritos a exame conseguiram realizar a provas, ou seja, cerca de 20 mil alunos ficaram sem exame de Português, pelo que o ministério foi obrigado a anunciar logo no mesmo dia que se realiza novo exame dia 2 de Julho.

Mas a imagem da seriedade e do rigor de Estado, que é necessária à execução de exames, ficou comprometida. Mesmo antes do dia, o facto de o ministério convocar para vigiarem exames dez vezes mais professores do que os dez mil que normalmente estariam envolvidos, mostra o desespero e a falta de racionalidade com que o Governo agiu perante o problema. Já em relação ao dia, os dados conhecidos falam por si.

Conclusão: o exercício de autoritarismo protagonizado por Nuno Crato redundou em descrédito da autoridade de Estado e na mácula do currículo dos alunos. A greve teve assim apenas um aspecto positivo - a vitória que ela foi para os professores. E neste sentido, ou seja, num sentido social mais amplo, pode dizer-se que esta greve foi uma mais-valia para a sociedade portuguesa e para a democracia.

Isto porque, se o Governo pensou que ia fazer dos professores um exemplo e que ia "quebrar a espinha" ao movimento sindical, a união dos sindicatos e a união com que todos os professores agiram deu uma lição ao Governo sobre como nem tudo é permitido e como há pessoas que não se deixam intimidar pelo medo. A maioria da classe docente, ao mostrar que não se deixava acobardar pela intimidação do Governo, deu uma lição de dignidade e serviu de exemplo a toda a função pública, a todos os trabalhadores, à sociedade portuguesa e à democracia portuguesa. Os professores estão assim de parabéns, pois voltaram a ser uma referência para a sociedade, uma referência contra o autoritarismo e contra o medo.

P.S. - Na sequência da greve, a JSD fez na Assembleia uma pergunta em estilo fascistóide sobre o dinheiro que os sindicatos recebem do Estado. Será que a JSD vai perguntar a seguir sobre o dinheiro que os partidos recebem? Isto porque presume-se que a Jota saiba que os sindicatos são organizações representativas da população tão centrais nas democracias como os partidos.

Jornalista. Escreve ao sábado sao.jose.almeida@publico.pt

22 de junho de 2013

Reis Novais sobre a "selvajaria" - Jugular

Não deixem de ver este vídeo 

Se não nos unirmos (Professores, Pais, Alunos,...) e não agirmos rapidamente, voltaremos, num ápice, aos tempos antigos - os "hard times", de Charles Dickens!!!

21 de junho de 2013

"Professores em luta pela Escola Pública de qualidade para todos, em luta pela democracia"

Intervenção de Rita Rato na Assembleia de República




Senhor Presidente,
Senhores Deputados,

Depois de no passado sábado a resistência e a determinação dos professores ter inundado a Avenida da Liberdade, os professores portugueses realizaram ontem uma jornada de luta histórica em defesa da Escola Pública de Qualidade.
De norte a sul do país milhares de professores estão a construir uma poderosa luta em defesa da Escola Pública de Democrática.
Por isso mesmo, daqui saudamos com uma imensa confiança a luta de todos e cada um dos professores e professoras que perdendo um dia de salário, se organizaram e mobilizaram juntando forças na defesa da Escola Pública de Qualidade para Todos.
Esta greve de 17 de Junho, travada com uma imensa coragem pelos professores portugueses, foi ainda mais importante porque representou uma sólida expressão da unidade dos professores contra um Governo chantagista, irredutível e intransigente.
É curioso que nunca tenhamos ouvido o Ministro Paulo Portas em conferências de imprensa à hora do almoço de Domingo a anunciar o aumento de 2,6% dos manuais escolares, ou a anunciar o fim do passe escolar para os estudantes dos 4 até aos 23 anos; ou a anunciar o fim de terapias e apoios a alunos com necessidades especiais; ou a fazer um balanço do despedimento de 14.500 professores contratados, que tanta falta fazem à Escola Pública.
É também curioso que o Primeiro-Ministro, que se diz agora tão preocupado com os jovens e as suas famílias, não esteja nada preocupado quando força milhares de jovens a abandonar o seu país e a emigrar para fugir à miséria e à fome.
Não é nada curioso, é até bastante revelador que o Presidente da República conhecido pelos seus silêncios ensurdecedores, nunca tenha tido uma palavra a dizer sobre o drama de milhares de alunos forçados a abandonar os estudos, e sobre a justa luta dos professores tenha vindo contribuir para o clima de pressão e chantagem.
Hipocrisia política.
Sr. Presidente,
Sr. Deputados,

Os 95% de adesão à greve das avaliações, a par dos 90% registados no dia de ontem são reveladores da determinação dos professores, e provam que o Governo apenas permitiu o funcionamento de muitas salas de exame, através da adoção de um conjunto de ilegalidades, irregularidades e arbitrariedades.
Sabe bem o Governo que a luta dos professores não é contra os estudantes, é contra a política da Troika, de destruição da Escola Pública de Qualidade, é pela dignidade e respeito que merece e exige a profissão docente.
Podemos mesmo dizer que esta luta é também em defesa dos estudantes e os seus direitos, é pela defesa do seu futuro numa escola que assegure a formação da cultura integral do individuo, numa escola que assegure sempre qualidade do processo ensino/aprendizagem.
A dita preocupação do Governo sobre as consequências de 1 dia de luta dos professores é desmascarada por 365 dias de imposição de medidas de degradação da qualidade do ensino:
•o aumento do número de alunos por turma;
•a criação de mega-agrupamentos que desumaniza os espaços e aumenta a descoordenação pedagógica;
•a reorganização curricular para despedir milhares de professores;
•a exclusão de alunos com necessidades especiais, cortando e retirando apoios materiais e humanos essenciais.
Sr. Presidente,
Sr. Deputados,

A Escola Pública de Qualidade para Todos é uma das mais importantes conquistas de Abril. A Escola Pública é um dos pilares estruturantes do regime democrático.
Não há democracia sem Escola Pública de qualidade, e a degradação da Escola Pública significa a degradação profunda do próprio regime democrático.

Os professores sabem disto. E por isso mesmo, a sua longa jornada de luta não corresponde a nenhum desígnio corporativo. A luta histórica, travada em 2013 no século XXI, pelos professores é uma luta em defesa da democracia.
A luta dos professores portugueses em defesa dos seus direitos é inseparável da luta pela qualidade da Escola Pública; é inseparável da luta corajosa em defesa do próprio regime democrático.
A luta dos professores não é contra os alunos. É contra a política deste Governo e da Troika, em defesa do emprego com direitos contra o desemprego; em defesa da estabilidade e continuidade pedagógica contra a mobilidade especial.
Sr. Presidente, Sr. Deputados,

Os responsáveis pela instabilidade que se vive hoje nas escolas não são os professores, é o Governo e a sua intransigência de despedimento de milhares de professores e de cumprimento do Pacto da Troika.
Apelamos por isso aos professores em especial, mas a todos os trabalhadores, a todos os homens e mulheres deste país a lutar pela demissão do Governo e pela derrota do Pacto da Troika, em defesa dos valores de Abril e do regime democrático.
Disse.

"REQUALIFICAÇÃO" Docentes - Despacho aprovado em Conselho de Ministros

Despacho já aprovado pelo Governo. Chamo a atenção para o ponto 3 que coloca a TODOS os professores no "olho da rua", transferindo essa decisão para os directores.

Se os professores não perceberem agora, não podem queixar-se no futuro.

Atenção ao "diploma próprio". Poderá ser aqui que entra como 1.ª cláusula o resultado da avaliação externa!


Existem professores que julgam que é lei a ordenação e que só estão em perigo os últimos de cada grupo disciplinar.

Então... ainda não está pronto para a greve? 



Quem tem medo dos professores? (um grito de revolta)

Quem tem medo dos professores?
Por Helena Almeida

 
… pois...
 
Pelos vistos, todos. 
Quando a classe se une; 
quando a inércia se sacode; 
quando a doentia tendência que os professores têm para cumprirem tudo, aceitarem tudo sem um queixume - se transforma na revolta de quem já não aguenta mais; 
quando os professores tomam consciência do poder que detêm - e o exercem, o país treme.
 
Tremem os políticos ao verem escapar-se-lhes debaixo das garras dominadoras a classe que (justificadamente, diga-se...) acreditavam mais submissa, a mais sensível à chantagem emocional. Os direitos dos jovens, pois claro!
Tremem os pais ao verem ameaçados ... basicamente, os seus organizadinhos planos de férias, pois que outra coisa?
 
Hipócritas, uns e outros.
Não os comovem as crianças com fome, a única refeição diária retirada das escolas, a ASAE que há anos se pôs a medir batatas e encerrou ou inviabilizou as boas cantinas escolares, agora reféns da normalizada  fast food de empresas duvidosas.
Não os comovem as escolas fechadas, as crianças deslocadas, as escolas-fábrica em que cada aluno não é sequer um número, o interior do país desertificado, as longas viagens de e para casa, o tempo com a família, inexistente.
Não os comovem os livros deitados fora, que deixaram de servir porque sim: o novo programa de matemática para quê se o outro dava mostras de funcionar, o (des)acordo ortográfico para benefício de quem..
Não os comovem os professores massacrados que lhes aturam os filhos todo o dia, : «Já não sei o que fazer dele, dela..., em casa é a mesma coisa... »
Não os comovem os alunos que querem aprender e não podem, a indisciplina na sala de aula e os professores esgotados, deprimidos, muitas vezes doentes, os professores que desabam a chorar no meio da aula, a tensão, as pulsações que disparam e como é que se pode ensinar assim?
Não os comovem os professores hostilizados publicamente por ministras, escritores, comentadores, opinadores - e já lá vão anos de enxovalhamento!
Não os comovem as políticas aberrantes do ministério da Educação, as constantes alterações aos curricula, aos programas, as disciplinas de uma hora semanal a fingir que existem e os professores que se adaptam aos caprichos todos, formações atrás de formações, obrigatórias todas, pagas do próprio bolso algumas;
Não os comovem as condições de trabalho e de saúde de quem lhes zela pelos filhos, as horas insanas passadas na escola, as tarefas sem sentido e as outras, o tempo e a disposição que depois faltam para tudo o resto que fazem em casa, preparar aulas, orientar trabalhos, corrigir testes, as noites que não dormem e amanhã aguenta-te que não são papéis que tens à frente, mas sim pessoas!
Não os comovem vidas inteiras de andar 'com a casa às costas', 10, 20, 30 anos contratados (dantes chamavam-se 'provisórios'), de Trás-Os-Montes ao Algarve e é se queres ter emprego, SEMPRE assim foi até conseguirem um lugar no quadro de efectivos numa escola - e agora aos 40, 50, à beira de vínculo nenhum! - as regras que mudam, a reforma que se alonja, a carreira de há muito congelada, os sucessivos cortes no salário, os impostos uns atrás dos outros e depois ......
cara alegre que tens a responsabilidade de ensinar, formar, educar os nossos jovens, futuro deste país ou de outro para onde emigrem, será mais certo.

E eu digo, professora que fui, professora que serei sempre e já não vos aturo: VÃO-SE FODER com as vossas preocupações da treta, a vossa chantagem e as vossas ameaças, os vossos apelos aviltantes. E não, não peço desculpa pela linguagem, que outra não há que dê a medida da raiva.

Quem é que vocês, políticos, associações de pais, pensam que são?
Vocês, que destroem tudo o que de bom se tinha conseguido neste país? Que promovem o regresso à miséria, ao cinzentismo, à ignorância? Que se estão borrifando para os alunos e as famílias, a qualidade do ensino nas nossas escolas públicas? Que tiram ao estado para darem aos privados? Que acabam com apoios onde eles eram vitais, aos alunos mais pobres, aos alunos com deficiências? Que despedem psicólogos e professores do ensino especial? Que, em exames, recusaram tempo extra aos alunos que a ele tinham direito? Que não fazem nada para promover a educação, os vossos podres serviços públicos reféns do vosso oportunismo, da vossa falta de valores, do vosso cinismo?
Vocês, que atacam os professores mas lhes confiam os vossos filhos? Que não os educam em casa, mas esperam que eles o façam na escola? Que agora defendem a "mobilidade especial" quando antes defendiam a estabilidade, se queixavam de que as crianças mudavam de professores todos os anos? Que não percebem que um professor maltratado é um profissional menos disponível para os alunos que tem à frente? Que a luta dos professores é a luta pelos vossos filhos, pela qualidade da sua educação, pelas oportunidades do seu futuro?
 
E vocês, opinadores 'de bancada' que continuam a achar que os professores trabalham pouco e ganham muito, por que se queixam agora desta greve (três meses de férias, é?!), quando nunca antes se queixaram das condições miseráveis em que vocês próprios sempre viveram?
Por que não se queixam dos dinheiros mal-gastos destes políticos?
Por que não se queixam de um serviço público de televisão que vos embrutece e vos torna prisioneiros de quem vos engana todos os dias, vos impede de terem pensamento próprio?
Por que não se queixam da razia deste governo sobre os  funcionários públicos, dos serviços que vão funcionar muito pior, das horas de espera que vão aumentar, nos hospitais, nos centros de saúde, nos correios e nas repartições todas, a 'má-cara' de quem, maltratado, vos vai atender com pouca paciência e muito cansaço?
A vocês, que pelos vistos não sabem o que é uma greve, nunca vos vi defenderem os professores do vosso país. Vi-vos aplaudirem uma ministra que vos 'ganhou', 'perdendo-os'. Vi-vos porem-se contra eles, ao lado dos filhos que vocês não souberam nem se preocuparam em educar. Vi-vos irem às escolas apenas para insultarem ou ameaçarem os que nela todos os dias 'dão o litro' para que os vossos filhos sejam melhores que vocês, tenham as condições de vida que vocês não puderam ter.
 
Os professores não estão de férias, como vocês, que tudo julgam saber, gostam de apregoar.
Os Professores estão em greve. Finalmente!
Os Professores levaram anos a aguentar pauladas. Anos e anos a serem, eles, prejudicados.
Agora fazem greve, dizem BASTA!
Vocês, deviam fazer o mesmo, assim a educação que a escola pública vos proporcionou vos tenha garantido sentido crítico, pensamento autónomo e DIGNIDADE.
Helena Almeida

15 de junho de 2013

Agora não quero nada com os Professores…

Quero sim,
com os maridos e mulheres dos Professores,
com os filhos dos Professores,
com todos os Pais,
e com todos os defensores da Escola Pública.

Amanhã existe uma manifestação, temos que estar lá a apoiar o pessoal docente, não docente e todos os meninos.

Como marido, mulher e filho…

Se isto avançar correm o risco de só ver os vossos maridos/mulheres e mães/país ao fim de semana… pois podem ter o vosso querido a ter que percorrer mais de 300 km para dar aulas;

Se isto avançar, o salário do vosso querido pode chegar simplesmente para a manutenção e gasolina do automóvel;

Se isto avançar, pode ter o vosso querido  sujeito a ir para o desemprego (sem subsidio de desemprego);

Se isto avançar, e em virtude de todas as pressões e desilusões, podem ter que passar o resto da vida do vosso querido a tratar dele, das suas depressões e afins…;

Se isto avançar…. a família poderá se tornar, em meros momentos de choro.

Como Pai/mãe…

Se isto avançar, poderemos ter um simples local para despejar os filho… no qual a aprendizagem, o carinho, a compreensão deixarão de existir para passar a termos um sítio em que carimbam os nossos filhos à entrada e à saída…

Pois a ideologia destes governantes vai ao encontro daqueles que querem emburrecerem a sociedade para que estes percam a capacidade de pensar, a fim de serem mais facilmente manipuláveis…

É preciso dizer mais?

Já se esqueceram dos últimos ataques aos meninos, vossos filhos?

Despeja-los em salas, diminuir/acabar com os apoios aos mais carenciados, acabar com os apoios ao ensino especial e despejar os meninos “deficientes” dentro de uma sala com mais “vintes e…”, acabar com disciplinas que eram uma mais-valia na progressão de aprendizagem dos meninos…

É mesmo preciso dizer mais?

Não é pois não….

Agora é urgente e necessário estarmos todos na manifestação nacional dos professores que se vai realizar no próximo sábado, às 15h, com inicio no Marquês de Pombal.


Não desiludam os vossos filhos e familiares….

14 de junho de 2013

Do verdadeiro prejuízo

por Fátima Inácio Gomes, em 11.06.2013

O anúncio da greve de professores às reuniões de avaliação e a um exame nacional veio pôr a nu o país que temos. Um país de faz de conta.
Fica bem, democraticamente bem, dizer que “a greve é um direito”. Mas quando os professores anunciam uma greve (a medida mais radical de contestação, que se usa quando todas as outras se esgotaram) o democrático verniz estala. Um profissional da política (daí, um dos responsáveis pelo estado do país e das contas públicas), agora emboscado no comentário televisivo, acusa os professores de desrespeitadores e de criminosos. Ministros e deputados vociferam, diariamente, nos meios de comunicação social, incendiando a opinião pública, que educam à medida da sua manipulação.

O Governo lançou uma campanha espantosa de diabolização da greve dos professores, em particular à do exame a Português, transformando os alunos nos pobres cordeiros sacrificados à voragem do lobo mau. Como se o Governo, até à data, não tivesse feito mais do que lançar medidas que prejudicam as famílias e, muito particularmente, os jovens. Como se o Governo, até à data, na Educação, não tivesse lançado medidas com efeitos muito mais gravosos do que uma greve a um exame nacional pode causar. Mais uma vez, o Governo quer desviar o ónus da responsabilidade para os bodes expiatórios do costume… os professores. E há muita “opinião pública” que embarca neste discurso – ainda merecerá um estudo aprofundado a análise desta patologia que, recorrentemente, acomete a população sempre que os professores são assunto.

 A degradação das condições de trabalho contra a qual os professores lutam não só põe em causa a qualidade do ensino atual (não, Sr. Ministro, não é o mesmo ensinar a 15 ou a 30 alunos, por mais fabulosos que sejam os métodos e competente seja o professor) como compromete perigosamente a qualidade do ensino no futuro: quem serão os professores do futuro, quando os que se formam atualmente (ou de há dez, quinze anos para cá) são enxotados do ensino?  quem serão os professores do futuro, quando os bons estudantes são aconselhados a não seguir uma profissão que, garantidamente, não tem futuro de emprego e é cada vez mais desvalorizada  e enxovalhada na sociedade?
Gostaria que algum senhor deputado, daqueles que estão tão indignados com a greve dos professores, me respondesse, aqui mesmo, neste espaço, frontalmente, a uma questão, se é que alguma vez descem da redoma onde se refugiam e isolam das pessoas que dizem representar para falar com elas.
Responda-me, pois, honestamente (e esta questão lanço-a também a todos os pais, a todos os portugueses):  o seu filho é um bom aluno, está no 12º ano, e diz-lhe que quer ser professor de Biologia. Ou de Filosofia. Ou professor do primeiro ciclo. Ficará tranquilo com essa escolha? Achará, honestamente, que é uma boa escolha?

Tenho duas filhas, uma no 8º e outra no 10º ano. Nenhuma delas quer ser professora. Não por não reconhecerem valor à profissão (conhecem o meu trabalho e sabem reconhecer o dos seus professores), mas porque sentem que a profissão não é reconhecida. Muito menos valorizada, não só financeiramente, mas socialmente. Insurgem-se contra os comentários que veem na televisão, por exemplo, a propósito desta greve. Como se a mãe fosse a criminosa que o senhor Marques Mendes diz que ela é, por fazer greve, como se a mãe não tivesse os mesmos direitos que um varredor, um médico, um motorista, quando fazem greve. Como se a mãe fosse uma cidadã menor. E elas não querem isso para elas. E eu, apesar de gostar da minha profissão, também não quero isto para elas.

E assim, senhores deputados, senhores ministros, meus caros concidadãos, estamos a caminhar para um futuro muito mais prejudicial para muitos mais alunos do que aqueles que vão fazer agora exame. Caminhamos para um futuro sem professores. E aqueles que houver, serão os menos qualificados, incapazes de entrar num curso “melhor”. Que ensino será, então, o nosso, com esses professores? Que será, então, dos nossos alunos?

Percebem agora o perigo do caminho que se está a seguir? Quem anda, afinal, a causar verdadeiramente prejuízo aos alunos?

13 de junho de 2013

Lutar, resistir, por uma escola pública...

Os professores, tal como os outros trabalhadores, têm que ser solidários...

Só assim podem vencer os dementes que querem destruir o trabalho com direitos. Sim, que eles não querem destruir o trabalho, algo que sempre houve.

Já no  tempo da escravatura sempre houve muito trabalho, não existiam era direitos.
Os professores do privado não se esqueçam que andam a ser roubados dos "frutos" daquilo que produzem, pois em troca pagam-lhes o caroço...

Mas atenção, não tenham ilusões…

No dia em que retirarem, ainda, mais direitos aos professores da escola pública eles vão sentir consequências dessa retirada de direitos.

Pois estes professores terão, ainda mais, o direito a trabalhar mais por ainda menos…

É necessário lutar… é necessário lutar por uma escola pública de qualidade. No dia em que tal for alcançado podem crer que o corpo docente do ensino público crescerá drasticamente.

O que acabará é a necessidade do estado  financiar os lucros dos  donos dos colégios privados, e etc… e sobrará para todos os docentes e restantes trabalhadores da escola pública serem devidamente compensados pelo seu trabalho.


Assim como sobrará para os meninos terem direito a crescerem, aprenderem e a serem felizes de mãos dadas com todo o corpo docente e não docente, da escola pública…

DIA 15 de JUNHO – DE NOVO UM MAR DE PROFESSORES EM MANIFESTAÇÃO

Precisamos que assim seja! Depois do enorme sucesso que está a ser esta greve às avaliações, uma excelente manifestação aumentará a pressão sobre o MEC e o governo no sentido de impedir o aumento do horário de trabalho e a aplicação da “mobilidade especial”, antecâmara do desemprego para muitos professores, incluindo os do ensino superior,  e educadores. E dará confiança para a difícil greve do próximo dia 17.

Apelo por isso não só à sua participação, mas a que dinamize a participação dos seus colegas.

Este apelo dirige-se também aos/às docentes das escolas do ensino particular e cooperativo sobre os/as quais paira a ameaça de uma revisão escabrosa do CCT.
De passagem, e a título de incentivo, convido-o (a)a ler o poema de Ana Haterley colocado na página do SPGL .

Vamos a isto com confiança e determinação.


António Avelãs



30 de maio de 2013

A proósito da Greve dos professores


«Nem de propósito... Tal Grécia, tal Portugal.

Carta aberta de um estudante liceal grego (Traduzida de "Echte Democratie Jetzt")»:

Aos meus professores... e aos outros:

O meu nome é K. M., sou aluno do último ano num liceu em Drapetsona, Pireu.

Decidi escrever este texto porque quero exprimir a minha fúria, a minha revolta pelo atrevimento e pela hipocrisia daqueles que nos governam e daqueles jornalistas e media mainstream que os ajudam a pôr em prática os seus planos ilegais e imorais em detrimento dos alunos, dos estudantes e de todos jovens.

A minha razão para escrever é a intenção dos meus professores de fazer greve durante o período dos exames de admissão à Universidade e os políticos e jornalistas que choram lágrimas de crocodilo sobre o meu futuro, o qual "estaria em causa" devido à greve.*

De que falam vocês? Que espécie de futuro tenho eu devido a vocês? E quem é que verdadeiramente pôs em causa o meu futuro?

Deitemos uma vista de olhos sobre quem, já há muito tempo, constrói o futuro e toda a nossa vida:
- Quem construiu o futuro do meu avô?
- Quem vestiu o seu futuro com as roupas velhas da administração das Nações Unidas para a ajuda de emergência e reconstrução e o obrigou a emigrar para a Alemanha?
- Quem governou mal e estripou este país?
- Quem obrigou a minha mãe a trabalhar do nascer ao pôr-de-sol por 530 euros por mês? Dinheiro que, uma vez paga a comida e as contas, nem chega para um par de sapatos, para já não falar num livro usado que eu queria comprar numa feira de rua.
- Quem reduziu a metade o ordenado do meu pai?
- Quem o caluniou, quem o ameaçou, quem o obrigou a regressar ao trabalho sob a ameaça da requisição civil, quem o ameaçou de despedimento, juntamente com todos os seus colegas dos serviços de transportes públicos quando eles, que apenas queriam viver com dignidade, entraram em greve?
- Quem procurou encerrar a universidade que o meu irmão frequenta para atingir alguns dos seus sonhos?
- Quem me deu fotocópias em vez de manuais escolares?
- Quem me deixa enregelar na minha sala de aula sem aquecimento?
- Quem carrega com a culpa de os alunos das escolas desmaiarem de fome?
- Quem lançou tanta gente no desemprego?
- Quem conduziu 4.000 pessoas ao suicídio?
- Quem manda de volta para casa os nossos avós sem cuidados médicos e sem medicamentos?
Foram os meus professores que fizeram tudo isto? Ou foram VOCÊS que fizeram tudo isto?
Vocês dizem que os meus professores vão destruir os meus sonhos fazendo greve.
Quem vos disse alguma vez que o meu sonho é ser mais um desempregado entre os 67% de jovens que estão no desemprego?
Quem vos disse que o meu sonho é trabalhar sem segurança social e sem horários regulares por 350 euros por mês, como determinam as vossas mais recentes alterações às leis laborais?
Quem vos disse que o meu sonho é emigrar por razões económicas? Quem vos disse que o meu sonho é ser moço de recados?

Gostaria de dirigir algumas palavras aos meus professores e aos professores em toda a Grécia:

Professores, vocês NÃO devem recuar um único passo no vosso compromisso para connosco. Se recuarem agora na vossa luta, então sim, estarão verdadeiramente a pôr em causa o meu futuro. Estarão a hipotecá-lo.

Qualquer recuo vosso, qualquer vitória que o governo obtenha, roubará o meu sorriso, os meus sonhos, a minha esperança numa vida melhor e em combater por uma sociedade mais humana.

Aos meus pais, aos meus colegas e à sociedade em geral tenho a dizer o seguinte:

Quereis verdadeiramente que aqueles que nos ensinam vivam na miséria?

Quereis que sejamos moldados nas salas de aulas como mercadorias de produção maciça?

Quereis que eles fechem cada vez mais escolas e construam cada vez mais prisões?

Ides deixar os nossos professores sozinhos nesta luta? É para isso que nos educais, para que recusemos a nossa solidariedade?

Quereis que os nossos professores sejam para nós um exemplo de respeito por nós próprios, de dignidade e de militância cívica? Ou preferis que nos dêem um exemplo de escravidão consentida?

Finalmente, quereis que vivamos como escravos?

De amanhã em diante, todos os alunos e pais deviam ocupar-se de apoiar os professores com uma palavra de ordem: "Avançar e derrotar a tirania fascista!"

Lutemos juntos por uma educação de qualidade, pública e livre. Lutemos juntos para derrubar aqueles que roubam o nosso riso e o riso dos vossos filhos.


PS: Menciono as minhas notas do ano lectivo 2011/12, não por vaidade mas para cortar a palavra àqueles que avançarem com o argumento ridículo de que "só quero escapar às aulas": Comportamento do aluno: "Muito Bom". Classificação média: 20 ("Excelente") [a nota mais alta nos liceus gregos].

24 de maio de 2013

Nada de auspicioso se adivinha

Caros colegas

Em virtude da reunião ocorrida na passada semana (sexta-feira) entre o Ministério da Educação e a FENPROF, tenho a transmitir-vos resumidamente as informações que nos foram dadas pelo Ministério (na pessoa do secretário de estado do ensino básico e secundário):

1.ºOs Diretores de Agrupamento vão perder a subvenção que tem usufruído até à data pelo cargo que ocupam, uma vez que a mesma é considerada um suplemento remuneratório. O mesmo também se aplica aos demais funcionários que recebem suplementos;

2.ºOs professores que se encontrarem em horário 0 em setembro passam automaticamente para a mobilidade especial;

3.ºTodas as bonificações previstas no ECD que permitiam aos professores obter progressão mais rápida na carreira terminam;

4.º A equiparação das tabelas remuneratórias dos funcionários públicos e do privado deverão levar a uma redução salarial entre 15 a 20% a aplicar até 2015;

5.ºO aumento de trabalho irá passar de 35 horas para 40h, sendo que nos professores implicará um aumento de 3h na carga letiva, a aplicar a todos os professores, independentemente das reduções que possam beneficiar até ao momento;
O art.º 79.º está previsto acabar, estando a sua extinção ainda em estudo, se deverá ocorrer já em setembro de 2013 ou e setembro de 2014;

6.ºO ECD será revisto e para além das alterações previstas decorrentes do atrás exposto devem também introduzir novos artigos que preveem o despedimento por extinção de lugar, bem como a passagem à situação de mobilidade pessoal.

Dar-vos-ei mas novidades assim que souber, nomeadamente de novas formas de luta, pois cada um de nós não pode esquecer que os Sindicatos não são entidades individuais, mas sim todos nós. E ou agimos ou aceitamos passivamente. A consciência de cada um ditará o que deve fazer.

Com os melhores cumprimentos

De alguém...

24 de março de 2013

Agressão grave a professora - contada pela própria


Bom dia, 
Após contacto telefónico para denunciar uma agressão numa escola, foi-me solicitado que vos contatasse por este meio.

Assim, e enquanto professora e cidadã passo a relatar o acidente/agressão de que fui vítima.
Sou professora numa escola, em Setúbal e, na passada segunda feira, dia 25 de fevereiro, um aluno de uma turma de 9º ano retirou, sem o menor ruído e sem que quase ninguém se apercebesse, de propósito, a porta da sala de aula dos encaixes, pelo que a mesma ficou encostada à parede, dando a noção de que estava aberta normalmente. Quando me dirigi para a porta com o intuito de a fechar (convém salientar que é uma porta pesadíssima), a mesma caiu-me sobre o lado direito do corpo. Se não fosse um aluno estar junto a mim e tivesse sustentado a sua queda total, teria, certamente, ocorrido uma tragédia.
Chamei funcionários e um elemento da Direção da escola para testemunharem a ocorrência e foram necessárias quatro pessoas para voltar a colocar a porta nos encaixes. Como no momento, e com o susto, nada parecia ter-me magoado, continuei a dar aulas até às 18:30h.
Já no carro, durante o trajeto de Setúbal para Almada, comecei a sentir tonturas, dores no lado direito do corpo; um formigueiro e dores na cabeça, vista, ouvido e pescoço, pelo que me dirigi às urgências do Hospital Garcia de Orta, na área da minha residência. Permaneci durante seis horas nas urgências, onde me foram realizados exames, nomeadamente uma TAC e diversos RX que diagnosticaram um traumatismo craniano sem lesões internas graves e hematomas na cabeça.
O resto do corpo apenas está dorido e com nódoas negras (face, braço e anca). Contudo, e sem "pieguices" (como diria o nosso Passos), eu poderia ter morrido, se a queda da porta não tivesse sido apaziguada. E se caísse em cima de um aluno e o matasse?
A responsabilidade; negligência; leviandade; processo disciplinar e, quiçá, despedimento por justa causa seriam imputados a quem? Ao professor.
Todos lavariam as mãos qual Pilates... Quem me indemniza pelos danos de saúde de que padeço há três anos por ter ido parar a esta escola por um engano, omissão, incompetência...?
O que irá acontecer a estes alunos que já cometeram inúmeras infrações graves e continuam nas escolas como se nada fosse?
Sim, é que o IFP que, supostamente, "acolhia" estes alunos não os aguentam e estão a enviá-los para as escolas novamente... Surreal; irónico; subversivo.... não acham?
Gostaria que o meu caso fosse divulgado, não por ser mais um, mas por ter podido ser mais um, isto é, daqueles que são omissos por medo de represálias de vária ordem e/ou proveniência. Para além disso, segundo o MEC, os alunos, agora, após o Novo Estatuto do Aluno, têm, na teoria, punições graves. Contudo, na prática, e se forem menores, cometem delitos que põem em risco a integridade física e moral dos seus pares, assobiando impunemente, como se nada se passasse, uma vez que não têm a mínima consciência da consequência dos atos que cometem, mas sabem, porém, que nada lhes acontece de efetivo.
Nem os pais nem os alunos são responsabilizados pelos danos humanos e materiais que despoletam e as escolas e respetivas direções veem-se de mãos atadas, perante leis algo perversas. Como é que um Diretor pode penalizar um aluno como ele merece e de acordo com o delito que comete, sabendo que, muitas das vezes, a família sobrevive "à conta" do rendimento de inserção se o menino não prevaricar?
O que pode fazer um professor perante um caso "banal" destes? O que pode fazer a Direção de uma escola? O que pode fazer o MEC? O que pode fazer a sociedade? O que (se) pode fazer (de) Portugal? Come-se e cala-se com medo? Enterra-se a cabeça na areia e assobia-se para o lado, enquanto não for connosco e é com o colega? Espera-se que morra alguém a quem se tecerá hipócritas elogios na hora da partida? Por que motivo oiço todos os professores a queixarem-se no fundo das suas olheiras, diariamente, de tudo e todos, que se arrastam literalmente por não aguentarem mais a exaustão, a (o)pressão e o medinho, mas no momento de dar a cara, de falar, de confrontar, de estender a mão a um colega, se encolhem, enfiando a cabeça no seu umbigo cobarde e individualista, como quem pensa "não é nada comigo; o melhor é não me misturar...". Até, um dia, lhe tocar a si ou aos seus.
A desunião e o medo não fazem a força. A cobardia não deverá ser o nosso lema. O país e a sua soberania dependem de um ensino e de uma educação, onde se esteja e seja tratado com dignidade para que o brio e a motivação por dar/fazer mais e melhor venham ao de cima. É o lema de muitas empresas, até já em Portugal, note-se com estranheza...
Este é mais um desabafo de uma professora maltratada, que faz 80 quilómetros para ir trabalhar, gastando cerca de 250 euros/mês em gasóleo e portagens, sem quaisquer ajudas de custo, como tantos que tanto se queixam e, no entanto, as auferem; a quem retiraram cerca de 200 euros para acertos, no mês de fevereiro; que está congelada (a todos os níveis) há cerca de 8 anos; que vê contratados a serem colocados como efetivos, passando à frente dos seus 20 anos de serviço, porque o MEC decidiu oferecer mais um presente envenenado a 600 contratados, atirando areia para os olhos de todos, e passando, ou melhor, tentando passar, um atestado de debilidade mental aos professores e cidadãos portugueses, subestimado a sua inteligência. E os professores de quadro que estão há anos longe de casa e das suas famílias, gastando o que já não têm: saúde; esperança e dinheiro? Resta a frustração e ir trabalhar com dores; malas com rodinhas; com depressões ou cancros. Também, quantos mais morrerem melhor, certo?
Não vou cantar a Grândola Vila Morena, porque não estou em condições físicas para o fazer, mas conto com a divulgação deste texto ou caso (como melhor entenderem fazer), visto serem uma entidade respeitadora da liberdade de expressão dos portugueses e que, indubitavelmente, lhes servem um excelente serviço público.

31 de julho de 2012

A Luta pela posse de uma Bola


Exmº Sr Ministro da Educação e Ciência

Pensei traduzir a minha indignação, relativamente à alteração curricular que Vª Exª propõe, mas confesso que a emoção foi tal que tive de esperar algum tempo para, após fazer algumas inspirações com profundidade, saber como o havia de fazer.

Imagine que tenho um filho, ou Vª Exª tem um filho por exemplo, e questiono-me como é que o devo educar. Naturalmente, a minha preocupação começa por contextualizar um desenvolvimento infantil baseado numa boa alimentação e no conforto de um envolvimento afectivo familiar (preferencialmente, no mínimo Pai e Mãe).

Eu percebo e sei, que tal não é possível para todas as pessoas. Uns porque têm que bulir, sujeitos às necessidades de sobrevivência, outros porque colocam a sua carreira profissional à frente de tudo, primeiro a carreira depois os filhos e ainda outros por ganância de dinheiro ou de poder, aspectos essenciais para lhes alimentar o ego. Encostam-se aqui e ali, juntando-se a outros com os mesmos dois objectivos e vão constituindo “lobbies” de poder.

Ora bem, todos sabemos que, nos primeiros anos de vida, é fundamental e importante garantir à criança um desenvolvimento equilibrado. Não é necessário tirar uma licenciatura nos EUA. Qualquer Faculdade, mesmo essas muitas dezenas instaladas há uns anos atrás, sabe-se lá com que objectivo, explicam isso.

Penso que o referido objectivo foi para valorizar o ensino e a formação das populações, ou de alguma população. O crescimento deve acompanhar um bom desenvolvimento. A qualidade dos estímulos a que sujeitamos a criança é fundamental. O crescimento é-nos garantido por condições saudáveis de vida. Se a genética não nos pregar nenhuma partida, uma boa alimentação, afecto, equilibrado, e um funcional enquadramento familiar, multidisciplinar, social e cultural, são aspectos fundamentais a considerar.

Podemo-nos questionar o que é um bom desenvolvimento. Este baseia-se, naturalmente, na particularidade dos estímulos. Começa aqui a nossa discordância.

Apercebo-me que para si, os factores cognitivos são os essenciais. Vª Exª é um homem do pensamento. Do pensamento abstracto. Da criatividade, do intelecto. Como se isso fosse um exclusivo da teoria. Esquece aspectos endógenos como os idiossincrásicos. Vª Exª está a ver!?

Não pode, nem deve, ignorar o corpo. É ele que o acompanha desde o primeiro dia. Aquele que quando não está bem, transmite sintomas que o fazem, preocupado ou assustado, recorrer ao médico. Aquele que irá ficar consigo até aos seus últimos dias, quer saiba muita matemática, muitas línguas ou não. Isto é, independentemente, das suas potencialidades intelectuais, das suas competências, dos seus conhecimentos, tem que carregar com ele.

Estamos perante uma realidade universal.

Aquele corpo onde se dão as reacções químicas que sustentam a vida. Sim, porque é da vida que estamos a versar. Aquele corpo que o olha reflectido no espelho. Que lhe alimenta o ego. Que fomenta a vaidade. Que expõe o narcisismo que há dentro de cada um. Que na intimidade promove um diálogo permanente, nem sempre pacífico, com o espírito. Como nos diz André Giordan “O meu corpo, a primeira maravilha do mundo”. Vª Exª vê, já estamos a misturar as coisas. Coisas do corpo, da sua química e coisas da psique, do pensamento. Pois é, eu cá no velho e histórico Portugal, estudei que nós somos uma unidade.

Nos EUA não sei, nunca lá fui. Daí que eu conceba um desenvolvimento harmonioso, nomeadamente na população infanto-juvenil, considerando essencialmente, a unidade das áreas, da relação afectiva, cognitiva e motora. Não é por acaso, que por exemplo, a (OMS - Organização Mundial de Saúde), no combate ao sedentarismo, propõe um reforço da actividade física na formação geral nos currículos académicos.

Desculpe Vª Exª a audácia e o confronto. Não quero ferir susceptibilidades nem sensibilidades.

Parece-me que estamos a amarrar os miúdos às carteiras, com a ergonomia que se lhe reconhece, (muitos miúdos, devido aos “trocos”) e dar-lhes mais do mesmo, conceitos, fundamentalmente teóricos, independentemente dos ritmos de aprendizagem e dos níveis de concentração, até eles se saturarem… ou adormecerem. Atrás do bocejo, vem sonolência, a desconcentração, promovendo assim o abandono. Desculpe, Vª Exª., mas não previu sequer no tempo de aula curricular o tempo para os sentar (aos trinta).

Desculpe… é o meu sentido pragmático de analisar as coisas. Não ligue. Sabe, Vª EXª, desde Abril de 74 já tivemos, sentados no seu cadeirão, alguns trinta e quatro ministros, e todos a pôr a mão na legislação. Não hão-de os professores a estar confundidos e, naturalmente a cair na psiquiatria.

Voltemos ao hipotético filho.

Ora, a criança expressa-se e desenvolve-se significativamente, na sua unidade, pelo movimento. Sobe, desce, empurra, salta, cai, corre, atira, agarra, equilibra-se, etc..
Atenção, não nos vamos esquecer aqui, dos protegidos, dos “arrumadinhos” que estão sempre fechados e privados, não só do convívio em interacção com o outro, mas também, de se exporem e expressarem através de actividades práticas promotoras de desenvolvimento activo.

Está a ver Vª Exª como se começam a imprimir modelos de vida, virados para a actividade ou para o sedentarismo. Isto numa fase do desenvolvimento de significativa dependência.
Ora, como parece que somos seres inteligentes, é fácil perceber o que é mais saudável. Não nos podemos esquecer que aquelas crianças que estão fechadas, a família mais próxima que têm é, normalmente, a televisão, com os seus efeitos subliminares neuromusculares (Derrick de Kerckhove, em “A pele da cultura”, estuda isto), depois a televisão e as playstation e, mais tarde, a televisão, as playstation e os computadores.

Digo família porque eles passam mais tempo sossegadinhos com estes aparelhos, do que com qualquer elemento da família. Certos pais dizem com orgulho que “O meu menino não quer sair de casa” (“está domesticado”). Quando eles vivem a complexa ruptura do abandono da infância, na adolescência, os pais dizem-nos, “Gostava que ele praticasse algum desporto, mas ele não quer. Não sei o que hei-de fazer dele”.

Desde cedo é a publicidade através de filmes coloridos, bem musicados, movimentados, curtos, variados e com a promessa de uma oferta, a estimular o imaginário (e o consumo), que prende os mais novos. As mamãs para eles estarem mais sossegadinhos ainda, até os põem em frente à televisão. Não sei, na minha ignorância, até que ponto começam aqui a ficar referenciados os níveis de concentração das crianças. Os rapazes do Marketing sabem isso e agradecem.

É necessário segurar estes potenciais consumidores. Depois da fase publicitária proporcionam-lhes o convívio com desenhos animados. Estes, os desenhos animados, vão acompanhá-los, alternando com os jogos informáticos, até à idade adulta, e continuam no decorrer desta. Pois, diariamente, podemos usufruir de desenhos animados e jogos para adultos. Começa-se com “A Branca de neve e os sete anões” e viaja-se até aos “Simpsons” ou “Family Guy”. Enfim há que infantilizar. Quanto mais infantis, quanto menos crescerem, mais condicionados às referências dos primeiros anos e mais consumistas.

Talvez seja oportuna uma leitura a “Consumed – How markets corrupt children, infantilize adults, and swallow citizens whole” de Benjamin R. Barber. Isto claro para ler nas férias numa esplanada à beira mar. Até está em versão “amaricano”. Chomsky chama-lhe «a fabricação do consentimento».

Temos ainda aqueles pais, que para compensarem a sua ausência familiar reforçam esta situação com ofertas destes equipamentos. E… atenção, quanto mais caro melhor. Mais compensações afectivas. Mais ganhos afectivos. Julgam eles. Estou a lembrar-me, o que lhe recomendo, do filme português “Adeus Pai”.

E eu penso, tenho que libertar o meu filho desta imposição, deste padrão de vida implantado, desta formatação de sujeito.

Exmº Sr Ministro veja bem a aberração que não é, darmos a liberdade de movimento que a idade infantil sugere e impõe, potencializar esta motivação que a criança tem para brincar, interagir, explorar e descobrir. Veja bem a aberração que é estruturar situações práticas, com segurança, no contexto da aula, situações estas de grande envolvimento, onde o corpo, na sua unidade, é o objecto de aprendizagem. Promover actividade física com significado. Desafiando a criança a novas aquisições. De superação individual. Com esforço. Atenção, digo com esforço físico e intelectual. Em grupo, onde a criança se expõe e interage, adquirindo novas amizades e, simultaneamente, evoluindo da dependência para a independência.

Aprende a confrontar os amigos na posição de adversários e a aceitar isso como natural. É aqui que se promovem correctas atitudes e aquisição de valores, de compromisso e de dever, de obrigação e de reforço das atitudes volitivas.

Será isto socialização, prática, experimentada e vivida?

Palermices, não ligue. Não terão os pais, os encarregados de educação e a sociedade, o compromisso de proteger e defender a formação e o desenvolvimento multifacetado da personalidade das suas crianças?

Estamos perante uma proposta cultural de desenvolvimento, de complexidade progressiva, baseada em acções motoras fundamentais, tal como prevêm e sugerem os PROGRAMAS de EDUCAÇÃO FÍSICA. Sim, porque existem os programas. Aprovados pelo Ministério e concebidos para determinada carga horária semanal.

Talvez o Exmº Sr Ministro ignore a sua existência, ou não queira olhar porque o fundamental agora sejam os tais “trocos”. Mas eles existem, há já largos anos, organizados por objectivos gerais e específicos, considerando as capacidades, as atitudes e valores e, ainda imagine, as competências.

Veja só, já enquadrava as capacidades de realização por integração de competências. Como Vª Exª pode verificar trata-se dum conjunto de asneiras, mas existem uns visionários, inteligentes, que se propõem já tratar desta situação, rever os currículos e ignorar isto da Educação Física, senão os miúdos não aprendem a contar, escrever e a ler e, ainda assim, podem-se poupar as referidas “massas”.

É aqui que lamentavelmente, nutro alguma tristeza pelo significativo esforço, em vão, de alguns intelectuais, nomeadamente Fernando Savater, Edgar Morin, e quantos outros.

Repare Vª Exª que os programas se enquadram numa lógica de verticalidade e horizontalidade, de objectivos, conteúdos e avaliação de competências, desde o Pré Primário ao Secundário. Isto está tudo bem “armadilhado”. Olhe, se Vª Exª estivesse distraído!?

Veja só Vª Exª o que eles propõem ainda. Oportunistas como são, enquadrados de acordo com uma lógica cultural de desenvolvimento, e tirando partido da significativa motivação dos alunos para a prática da disciplina (não podemos ignorar a satisfação e gratificação das crianças e jovens na realização das aulas de EF) insistem em continuar a promover os tais estímulos em qualidade, aumentando assim, a rede neurónia, dado que o cérebro continua a crescer e a desenvolver-se.

Já viu Vª EXª o que é sujeitar um filho a situações de confronto controlado, de interacção, de cooperação, promovendo o espírito de grupo e equipa?
Está mal!?

E depois obrigar os miúdos a respeitarem-se, a respeitarem os outros quer como colegas de equipa, quer como adversários, a respeitar o Professor (a instituição), a respeitar as regras e normas?

Está mal!?

Sujeitar os miúdos a situações de superação individual, a aprender a lidar com a frustração, a promover o espírito de sacrifício, a consolidar aprendizagens e evoluir para novas aprendizagens?

Ensiná-los a lutar pelos seus objectivos, de acordo com os objectivos propostos para aquisição de novas competências, cada vez mais exigentes e complexas?

Ensiná-los a exporem-se na tentativa de execuções nas situações de aprendizagem, a reforçarem a sua inclusão, a admitirem o erro como um desafio para novas superações, a envolverem-se na estratégia de grupo, a desenvolverem o sentido crítico perante as estratégias utilizadas?

A luta pela posse de uma bola.

Mas, depois, temos o problema deles suarem. Pois é, já me esquecia desse pormenor. Tudo isto está mal!?

Eles escolhem, gritam, riem-se, choram, abraçam-se e, veja Vª Exª, que até se emocionam! Emoção. Quantas aulas de outras disciplinas a promovem??

Eu sei que isto não acontece na matemática ou no Português. Não há cá “abraçinhos“ nem as típicas manifestações “Olé, Olé, Olá” quando acertam um problema. Mas um golo, um cesto, merece individual e colectivamente a emoção do grupo.

E, para chegar lá, o cérebro tem que pensar, rápido, em pressão, como deve executar ou como deve movimentar-se no espaço perante os outros, equipa e adversários, de acordo com a actividade padronizada proposta, para ser eficaz. E isto vale a emoção dum abraço, que alimenta a unidade do grupo, quer no contexto de aula, quer fora do contexto de aula.

Promove ainda um clima escolar facilitador das aprendizagens e, consequentemente, evita o abandono escolar. Já viu Vª Exª, o micro social, grupos, equipas, regras, normas, árbitros, disciplina, luta, empenho, esforço, estratégia, compromisso que um simples jogo representa em termos de amostra para o macro social?

Com a vantagem de não ser simulado, é mesmo vivido e integrado. Repare Vª Exª, a aula acabou, eles dizem “Já!? Oh professor, deixe-nos ficar mais um pouco”. Repare Vª Exª, no recreio eles correm todos para a biblioteca para fazer exercícios de matemática e estudar outros conteúdos. Vá Vª Exª a uma escola e veja por si.

São os jogos que os motivam. Estão a treinar. A repetir os conteúdos de EF. Vª Exª já experimentou ler as observações dos alunos nos relatórios das avaliações das escolas?
Para muitos é a Educação Física (EF) e o Desporto Escolar (DE) que os leva à escola.

Vou segredar a Vª Exª uma questão curiosa: No primeiro dia de aulas depois das habituais apresentações. Proponho um jogo e, disfarçadamente, observo-os. Depois vejo, quem tem hábitos desportivos e executa com alguma qualidade, quem se empenha, quem se retrai, quem tem medo, quem evita expor-se, quem é egoísta, individualista, quem se expõe demasiado, quem é disciplinado, quem, embora sem grandes técnicas, é lutador tenta superar-se, quem é extrovertido, quem é introvertido. A esta observação acrescento uma leitura da ficha biográfica dos alunos (pais, mães, profissões, empregos, irmãos) e tenho a turma retratada em pouco tempo.

Tudo porque a Educação Física tem a particularidade prática de envolver significativamente, os miúdos, alunos, nas actividades solicitadas. Aqui não estão a olhar para o professor ou para o quadro fingindo que estão concentrados e estão com o pensamento distante. Aqui o empenho só pode ser de envolvimento e entrega às situações de aprendizagem.

Exmº Sr. Ministro, depois de tudo isto diz-nos que a nota vai deixar de contar para a média no Secundário!!??

Então eu estou motivado, esforço-me e depois não conta?

Ainda assim, com médias de sucesso elevadas em Educação Física, dada a motivação e empenho dos alunos. Está a prejudicar a grande maioria dos alunos e a esvaziar e ignorar os compromissos empenhados destes ao longo dos anos. Está a ver Vª Exª a injustiça e revolta que está a promover?

Tem razão, Vª Exª é Ministro, logo, tem razão. É evidente, que isto é tudo treta! Vª Exª, não acredite em nada disto. Até aqueles sujeitos daquela organização da saúde (OMS), também estão metidos nisto. Veja só que querem que a actividade física seja diária, como forma de prevenir a doença e promover a saúde.

Mas, nós estamos protegidos por pessoas inteligentes do Ministério da Educação. Basta uns minutos por semana de brincadeira e aí estão os hábitos saudáveis de vida implantados, para toda a vida do cidadão, sem promoverem despesas a médio e longo prazo na área da saúde. E depois, o que é isso da prevenção da obesidade infanto-juvenil, diabetes, hipertensão, do reforço da estrutura osteomuscular, da coordenação motora, da estabilidade psicológica, do aumento da auto estima, etc..

Tudo tretas!

Exmº Sr Ministro da Educação não vou alongar mais este resumo. Vª. Exª dá ares de inteligente, prove-o, reflicta nesta situação e reconheça que as coisas não estão bem decididas. Todos nós erramos e por vezes até somos ultrapassados por certas contingências, mas por favor, não estrague! Compreenda o significado da luta pela posse de uma Bola.

Romão G Antunes
(Presidente da Direcção da APEF-Foztejo, Associação de Profissionais de Educação Física dos Concelhos do Barreiro, Moita, Montijo e Alcochete